Engenharia clínica estratégica: o caminho da acreditação e da gestão de tecnologias que salvam vidas

Imagine a seguinte cena: um engenheiro clínico, altamente capacitado, confinado a uma pequena sala no subsolo de um hospital. O telefone toca só quando algo quebra. Ele corre, conserta, volta. Esse ciclo se repete interminavelmente. Durante anos, essa foi a realidade de muitos profissionais e a visão limitada que o mercado tinha sobre o setor.

Porém, o cenário mudou significativamente. Hoje, quem ainda enxerga a engenharia clínica apenas como um setor de apoio ou de conserto de máquinas está perdendo dinheiro, eficiência e, pior, colocando a segurança do paciente em risco.

Neste artigo, baseado na mentoria exclusiva apresentada por João com a participação de Tatiana Lourenço, vamos desconstruir mitos e apresentar o roteiro técnico para elevar a engenharia clínica ao patamar de assistência integrada.

Para guiar essa discussão, contamos com a expertise de Tatiana Lourenço. Ela é arquiteta e urbanista formada pela Universidade Anhembi Morumbi, com especialização em arquitetura hospitalar e experiência em projetos e gerenciamento de obras hospitalares há mais de 20 anos. Possui ampla experiência de mais de 15 anos em consultoria na área de saúde com projetos hospitalares e não hospitalares. Além disso, atua como avaliadara líder pela Organização Nacional de Acreditação (ONA) desde 2014 e pela Agência de Qualidade Sanitária da Andaluzia (ACSA) desde 2017, onde também foi gestora de projetos.

Tatiana atuou por mais de seis anos como gerente de avaliação e certificação aplicando a metodologia do Sistema Brasileiro de Acreditação (SBA) e certificações próprias. Hoje, ela atua como diretora de operações e avaliação no Instituto Eduque, instituição acreditadora homologada pelo Sistema Brasileiro de Acreditação da ONA.

Se você busca autoridade profissional, estabilidade e quer entender como a acreditação e a gestão de tecnologias são as chaves para o futuro de sua carreira e de sua instituição, este conteúdo é para você.

O novo posicionamento: de apoio à assistência integrada

Um dos pontos mais críticos discutidos por especialistas do setor é derrubado do mito de que a engenharia clínica é mero suporte. A medicina moderna é, em sua essência, dependente de tecnologia. Não existe diagnóstico preciso ou tratamento avançado sem equipamentos calibrados e funcionais.

Tatiana Lourenço é categórica ao afirmar que uma clínica de engenharia presta tanta assistência quanto aos profissionais da ponta. Isso significa que o papel do setor transcende a coleta e a entrega de equipamentos. A atuação deve ser pautada em dois pilares:

  • Integrada: trabalhando lado a lado com médicos e enfermeiros.
  • Integral: participando de todo o ciclo de vida da tecnologia dentro da instituição.

Saindo da sala do subsolo

Para o profissional que deseja crescer, o recado é claro: saia da zona de conforto. O engenheiro clínico do futuro não pode ficar isolado. Ele deve ir até a assistência, entrar na UTI, no centro cirúrgico, e entender as dificuldades reais da ponta.

Durante a discussão, foi relatado um exemplo prático de sucesso onde os técnicos de engenharia clínica não possuíam sala fixa. Eles foram alocados dentro de UTIs e centros cirúrgicos. O resultado foi um suporte imediato, entendimento profundo da rotina assistencial e uma resposta muito mais ágil às necessidades da equipe médica.

Acreditação: uma ferramenta de gestão, não apenas um selo

Muitos gestores e engenheiros ainda torcem o nariz quando ouvem falar sobre acreditação, associando-a à burocracia, custos elevados ou exclusividade de grandes hospitais de luxo. Vamos analisar os fatos trazidos pela metodologia da Organização Nacional de Acreditação (ONA) e desmistificar esses pontos.

Mitos e verdades sobre a acreditação

  • É só para grandes hospitais? Mito. A acreditação vale para toda a área da saúde humana. Clínicas pequenas, serviços de diagnóstico e unidades em locais remotos são totalmente elegíveis. A qualidade não depende do tamanho do prédio.
  • É um processo prescritivo e rígido? Mito. Não se trata de um checklist engessado onde alguém diz exatamente como você deve trabalhar. A metodologia busca entender e validar os processos que sua instituição já possui. O foco é verificar se esses processos atendem aos padrões de segurança.
  • É muito caro? Verdade relativa. Existe um investimento, sim. Mas, como ressalta Tatiana, ganhar dinheiro você não vai, você vai deixar de perder. O foco é a reorganização para evitar desperdícios. A falta de recursos financeiros não justifica a falta de acreditação; muitas vezes, é uma questão de priorização de investimentos.
  • É só um quadro na parede? Mito. Se o objetivo é apenas o marketing, o processo falha. O objetivo real é a mudança de cultura organizacional e gestão de riscos, não o certificado visual.

Requisitos de elegibilidade (ONA)

Para que sua instituição comece a jogar esse jogo de gente grande, ela precisa cumprir requisitos básicos, mas inegociáveis:

  • CNPJ ativo por mais de um ano.
  • Legalidade, com alvarás sanitários e de funcionamento e licenças 100% em dia.
  • Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) atualizado para conferência exata de leitos e colaboradores.
  • Escopo integral, pois na ONA não existe acreditar apenas um setor isolado. O processo deve abranger a instituição como um todo.

Gestão estratégica de tecnologias: a ferrari e o fusca

Você já viu um hospital comprar um robô cirúrgico de última geração só porque o concorrente tem, mas não tem infraestrutura ou equipe clínica preparada para usá-lo? Esse é um erro clássico de gestão de tecnologias que uma engenharia clínica estratégica deve evitar.

O dilema da Ferrari

Comprar uma tecnologia de ponta, elaborada a uma Ferrari, e usá-la de forma limitada por falta de adequação técnica ou processos mal definidos, como se fosse um Fusca, é jogar dinheiro fora. A engenharia clínica deve atuar na decisão de compra, avaliando critérios fundamentais:

  • Infraestrutura: temos onde ligar e como operar isso?
  • Desenvolvimento clínico: a equipe médica vai extrair o máximo dessa tecnologia?
  • Necessidade real: é útil para o nosso perfil de paciente ou é apenas vaidade?

Da corretiva para a preditiva

A evolução da área exige abandonar o modelo de extinção de incêndios, focado na manutenção corretiva. O foco deve ser uma manutenção preditiva. O objetivo é olhar para o desempenho e a vida útil dos equipamentos, gerando como resultado a redução de custos, previsão de quebras e aumento da disponibilidade dos ativos.

Cultura de segurança, riscos e fator humano

A transição de uma engenharia de escritório para uma engenharia de segurança passa obrigatoriamente pela gestão de risco e pela mudança de cultura.

Documento versus prática

Um dos maiores perigos é fazer o mapeamento de processos apenas para preencher papel. Na metodologia ONA, o documento deve refletir a prática. A gestão de risco serve para gerar melhoria real, identificando onde o processo pode falhar antes que afete o paciente.

O tripé do sucesso

Para alcançar a maturidade na acreditação, a instituição deve equilibrar três pilares:

  • Assim.
  • Pessoas e colaboradores.
  • Paciente.

Desafios de gestão de pessoas e regionalidade

Implementar esses processos no Brasil traz desafios únicos. Na questão da logística, em grandes centros, trocar um fornecedor é rápido. Em regiões como Manaus, onde o acesso muitas vezes depende de barcos, a engenharia clínica precisa de um planejamento logístico impecável para não deixar o hospital desabastecido.

Já na gestão, o maior desafio é vencer a resistência à mudança, adequando equipes de diferentes idades e perfis a novos processos de qualidade.

O futuro: inteligência artificial e inovação

Para o profissional que busca atualização, a mentoria destacou tendências que já são realidade nos manuais da ONA.

Inteligência Artificial (IA)

A IA não é ficção científica; é uma ferramenta de gestão. Ela já é vista como aliada em frentes importantes:

  • Manutenção preditiva, antecipando falhas com base em dados.
  • Agilidade de fluxos, otimizando processos.
  • Regra de ouro: deve ser usada com regras claras e consciência humana.

Facilitação tecnológica com QR Codes

Uma prática simples e inovadora é o uso de QR Codes em equipamentos. Isso facilita a rastreabilidade e permite que uma equipe de enfermagem abra ordens de serviço instantaneamente, integrando as áreas e agilizando o atendimento.

Conclusão: O Engenheiro como sustentador da segurança

Para encerrar, fica a reflexão sobre o perfil do novo engenheiro clínico. Ele deixa de ser um mantenedor de máquinas para se tornar um sustentador de segurança do cuidado.

Para atingir esse nível, a recomendação de Tatiana Lourenço e do Instituto Eduque é investir na escutatória, na arte de escutar ativo, e no benchmarking, trocando experiências com outras instituições para conhecer o novo. O conhecimento técnico é uma base, mas o sucesso vem da soma com conhecimentos de gestão, qualidade e processos.

Próximos passos para sua carreira

Você quer aprofundar seu conhecimento técnico e entender os detalhes dos manuais de acreditação e cultura de segurança indicados neste artigo? Acesse os materiais complementares oficiais:

Perguntas frequentes

Como as equipes de engenharia clínica podem melhorar o relato de riscos técnicos? Saindo da sala técnica e vivenciando a assistência. Ao estar presente em UTIs e centros cirúrgicos, a equipe entende a dificuldade da ponta e valida as barreiras de segurança in loco, transformando o relato em uma ferramenta de melhoria real, e não burocrática.

Como a IA ajuda os engenheiros clínicos a prever as necessidades de manutenção? A inteligência artificial, conforme os novos manuais, atua analisando dados de desempenho para fortalecer a manutenção preditiva. Ela identifica padrões que indicam falhas futuras antes que o equipamento pare, garantindo disponibilidade e segurança.

Quais são as etapas que ajudam uma instituição a fazer a transição de nível de acreditação? A transição exige maturidade. Não basta ter o processo desenhado no papel; é preciso que a prática reflita o documento. A instituição deve provar que gere seus riscos, que a cultura de segurança permeia todas as equipes, superando resistências geracionais, e que os processos sejam validados constantemente para evitar desperdícios.